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Junho 2013

As duas naturezas dos movimentos

As naturezas dos movimentos 

Penso que há duas situações diferentes: uma dos protestos que não nasceram midiatizados e outra daqueles que nasceram midiatizados.

Digo isto porque na segunda estive em uma manifestação (segunda) que nasceu longe das ruas de São Paulo, nasceu a partir da comoção que tomou conta das mídias grandes a partir da quinta. E nessa manifestação as pautas eram, na maioria, aquelas das tvs e jornais mesmo (corrupção dos políticos, hino nacional, bandeira, paz, etc).

Na terça estive em São Paulo e, mesmo com essas pautas presentes, não era a mesma coisa. Havia uma força grande das palavras de ordem contra o aumento, mais forte que os “brasil acordou” que estão tentando capturar o movimento. Ao mesmo tempo, na terça não estive na prefeitura, soube do que houve somente depois que cheguei em casa. E sai de lá com muita alegria, enquanto as pessoas que acompanharam pela TV e pelas outras mídias estavam com medo.

Por um lado, importante ver a TV para tentar supor o que vai subjetivar a grande maioria da população. Ao mesmo tempo, vontade de desligar para não ficar refém das vozes dos repórteres (sempre horríveis) e das imagens editadas.

Por pedagogias forjadas nas ruas, e não para as ruas

Talvez pela primeira vez em suas vidas, dezenas, centenas de milhares de pessoas vão para as ruas protestar. Pessoas que conheciam a convivência aos milhares somente em baladas, festivais promovidos por grande empresas, carnavais, jogos de futebol, rodeios, festas de final de ano, e comemorações deste tipo. Cantam o hino nacional, enrolam-se na bandeira do Brasil, gritam pautas conservadoras, quando não estão lá apenas para curtir o momento.

No meio destas multidões estão também os companheiros que há tempos militam cotidianamente, tendo encontrado as ruas, as polícias, os fascismos da mídia e do Estado, sem recuar, sem cessar. E há um estranhamento grande encontrando nas ruas todas essas pessoas que, também elas, estiveram engrossando essas linhas fascistas.

Em muitos casos, o estranhamento é tamanho que os militantes politizados não querem ir às ruas, sentem que o movimento está cooptado, que tornou-se uma única cruzada ingênua e conservadora de alienados. Essa, claro, é uma possível resposta ao problema. Mas o estranhamento, certamente, também se dá do outro lado.

Não há qualquer conscientização possível. Não há tempo para promover cursos de formação política. Sindicatos e partidos, ao invés de serem considerados partes das respostas, tem sido repudiados, sobretudo por adolescentes e jovens que lotam as ruas de uma vitalidade inigualável. Estas instituições e suas práticas parecem encontrar seu limite nas próprias ruas, quando os não politizados, vistos como alienados, abandonam os sofás, a tv, a internet, e vem experimentar.

Ao invés de rechaçar, moralizar, dizer o que deve ou não deve ser feito, como é certo ou errado se manifestar, tentando aplicar às ruas nossas pedagogias políticas, também nós, companheiros de luta e militância, podemos abandonar nossas certezas para forjar pedagogias nas ruas, a partir das ruas, capazes de tornar estes encontros que causam tanto estranhamento em formas mais potentes de ocupar as ruas e fazer delas algo perigoso – para o poder.

p.s.: estranhamente, neste mar de instituições em falência, a voz dos professores tem sido as mais ouvidas pelos estudantes. Suas palavras, seus relatos das passeatas, tem possibilitado que estes adolescentes e jovens consigam se orientar e alimentar um desejo muito intenso de estar lá.

 

 

 

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