Não estou morto. É apenas domingo.

As portas de casa ficam todas abertas. Exceto para os cães, que fedem. Mas os gatos e os vizinhos entram, sentam-se no sofá, tomam uma xícara de café (embora nunca tenham tomado uma) e conversam como se todos fossem uma mesma família. Isso tudo pela manhã.

À tarde as coisas deixam de acontecer. Alguns dormem, outros fumam, outros transam, outros dormem. E outros também dormem! Acordam apenas para o futebol, o faustão, o silvio santos. E todos ficamos sentados na frente da TV porque é domingo e não temos mais nada a fazer. Ou apenas podemos dizer que do desejo fizemos uma vaga lembrança.

Somos todos expectadores da tragédia, mas nem todos criamos a partir dela. E estou morto no domingo e mais morto ainda na segunda, quando tenho que voltar ao trabalho e a fazer movimentos que não tem sentido.

Não há vida suficientemente boa aos domingos. Ou, talvez, a vida suficientemente boa seja justamente esta que vivemos aos domingos, com cães segregados, vizinhos e gatos transitando pelo espaço, ruído branco cruzando todos os ambientes e todos os corpos, televisão trazendo sentido em sua missão colonizadora.

A vida que vivemos é sempre a vida que queremos. A vida que vivemos é sempre a vida que queremos?

Assinado: Ka Walo, pensador periférico

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