23/11/2009

Copenhague: Seattle está crescendo

“Espero que tenhamos crescido para nos tornarmos mais desobedientes ainda, porque a vida nesse nosso mundo poderá acabar por causa de muitas ações de obediência.”

John Jordan

“Há um quê de Seattle na mobilização para Copenhague: a imensa variedade de grupos, as diversas táticas disponíveis, e os governos dos países em desenvolvimento prontos para levar as demandas dos ativistas para a cúpula”, escreve Naomi Klein, especialista em assuntos relacionados à globalização e autora do livro “Sem Logo: a Tirania das Marcas em um Planeta Vendido”, em artigo publicado no The New York Times e reproduzido pelo portal UOL, 23-11-2009.

Eis o artigo.

Esses dias recebi um exemplar de pré-publicação de “The Battle of the Story of the Battle of Seattle” [algo como “A Batalha da História da Batalha de Seattle”], de David Solnit e Rebecca Solnit. O livro está programado para ser lançado dez anos depois que uma coalizão histórica de ativistas cancelou a reunião da Organização Mundial do Comércio em Seattle, a faísca que acendeu um movimento anticorporativo mundial.

O livro é um relato fascinante do que de fato aconteceu em Seattle, mas quando conversei com David Solnit, o guru da ação direta [forma de ativismo político] que ajudou a arquitetar o cancelamento, encontrei-o menos interessado em se lembrar de 1999 do que em falar sobre a conferência climática da ONU em Copenhague (de 7 a 18 de dezembro) e sobre as ações de “justiça climática” que ele está ajudando a organizar em todos os Estados Unidos em 30 de novembro.

“Este é definitivamente um movimento ao estilo de Seattle”, disse-me Solnit. “As pessoas estão prontas para lutar”. Há um quê de Seattle na mobilização para Copenhague: a imensa variedade de grupos, as diversas táticas disponíveis, e os governos dos países em desenvolvimento prontos para levar as demandas dos ativistas para a cúpula.

Mas Copenhague não é meramente uma reedição de Seattle. Parece que as placas tectônicas progressivas estão se movendo, criando um movimento que se constrói a partir das forças de uma era anterior, mas que também aprende com seus erros.

A grande crítica ao movimento que a mídia insiste em chamar de “antiglobalização” sempre foi que ele tinha uma lista imensa de reclamações e poucas alternativas concretas. Por sua vez, o movimento que convergirá em Copenhague trata de um único tema – a mudança climática – mas tece uma narrativa coerente sobre sua causa e soluções, que incorpora praticamente todos os problemas do planeta.

Nessa narrativa, nosso clima está mudando não só por causa da poluição, mas também por causa da lógica por trás do capitalismo, que valoriza o lucro em curto prazo e o crescimento perpétuo acima de tudo.

Nossos governos nos farão crer que a mesma lógica pode ser usada para resolver a crise climática – criando uma mercadoria de troca chamada “carbono” e transformando as florestas e as terras agrícolas em “áreas de sequestro de carbono” que supostamente compensarão por nossas emissões descontroladas.

Ativistas pela justiça climática em Copenhague argumentarão que, longe de resolver a crise climática, o comércio de carbono representa uma privatização sem precedentes da atmosfera, e que essas compensações e áreas de sequestro ameaçam se tornar uma corrida por recursos com proporções colonialistas.

Não só essas “soluções baseadas no mercado” não serão capazes de resolver a crise climática como também acentuarão de forma dramática a pobreza e a desigualdade – porque os mais pobres e os mais vulneráveis são as principais vítimas da mudança climática e os principais ratos de laboratório para esses esquemas de comércio de emissões.

Mas os ativistas em Copenhague não dirão simplesmente não a isso tudo. Eles apresentarão soluções que reduzem as emissões e ao mesmo tempo diminuem a desigualdade. Diferente das reuniões anteriores, em que as alternativas pareciam apenas considerações, em Copenhague, elas ganharão o palco principal.

Por exemplo, a coalizão de ação direta Climate Justice Action chamou os ativistas para invadir o centro de conferências em 16 de dezembro.

Muitos farão isso como parte do “bloco de bicicletas”, pedalando juntos numa “irresistível nova máquina de resistência”, ainda não revelada, composta por centenas de velhas bicicletas. O objetivo da ação não é cancelar a reunião, ao estilo de Seattle, mas abri-la, transformando-a num “espaço para conversar sobre nossa agenda, uma agenda vinda das bases, uma agenda de justiça climática, de soluções reais contra as soluções falsas… Este dia será nosso.”

Algumas das soluções ofertadas pelo campo dos ativistas são as mesmas que o movimento de justiça global defende há anos: agricultura local e sustentável; projetos de energia menores e descentralizados; respeito pelos direitos dos indígenas às terras; deixar os combustíveis fósseis sob a terra; afrouxar a proteção das propriedades intelectuais sobre as tecnologias sustentáveis; e pagar por essas transformações por meio de impostos sobre transações financeiras e cancelamento de dívidas externas.

Algumas soluções são novas, como a demanda crescente de que os países ricos paguem reparações de “dívida climática” para os pobres. Esses são pedidos audaciosos, mas todos já vimos o tipo de recursos que nossos governos podem disponibilizar para salvar as elites.

Como diz um slogan pré-Copenhague: “Se o clima fosse um banco, ele seria salvo” – e não abandonado à brutalidade do mercado. Além da narrativa coerente e do foco em alternativas, muitas outras mudanças estão por vir, incluindo uma abordagem mais consciente para a ação direta, que reconhece a urgência de fazer mais do que só falar, mas que está determinada a não representar o roteiro cansativo de policiais contra manifestantes.

“Nossa ação é de desobediência civil”, dizem os organizadores da ação de 16 de dezembro. “Superaremos quaisquer barreiras físicas que estiverem à nossa frente – mas não responderemos com violência se a polícia (tentar) intensificar a situação”. (Dito isto, é impossível que a reunião de duas semanas não inclua algumas batalhas entre policiais e jovens de preto; trata-se da Europa, afinal de contas.)

Há uma década, numa coluna do “The New York Time”s publicada depois que o encontro de Seattle foi cancelado, escrevi que um novo movimento que defendia uma forma radicalmente diferente de globalização “acabava de ter sua festa de debutante”.

Qual será a importância de Copenhague? Fiz essa pergunta a John Jordan, cuja previsão do que de fato aconteceu em Seattle eu citei em meu livro “No Logo”. Ele respondeu: “Se Seattle foi o movimento da festa de debutante dos movimentos, então talvez Copenhague seja a celebração de nossa maioridade.”

Ele alerta, entretanto, que crescer não significa atuar de forma segura, evitando a desobediência civil a favor de reuniões sóbrias. “Espero que tenhamos crescido para nos tornarmos mais desobedientes ainda”, disse Jordan, “porque a vida nesse nosso mundo poderá acabar por causa de muitas ações de obediência.”

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