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Fevereiro 2009

O extermínio da população de rua

Capítulo sexto da tese de Christian Pierre Kasper, intitulada “Habitar a rua”, disponível na Biblioteca Digital da Unicamp.

6. EXTERMÍNIO

The physical removal of the Jews went
largely unremarked, because the
Germans had long since removed
them from their hearts and minds.
R. Grüberger (1)

A presença de pessoas morando nas ruas das cidades em geral, e de São Paulo em particular, é constantemente combatida, não somente pelas autoridades, mas também por outros atores da vida urbana (comerciantes etc.). Há um consenso, que se estende até as entidades assistenciais, do que “é preciso tirar as pessoas da rua”. Por outro lado, de vez em quando aparece um fulano que se sente perfeitamente legitimado em incendiar um ‘mendigo’, pensando que está assim ‘limpando a cidade´.

Nosso propósito, neste capítulo, é de ir além das justificativas dadas às várias formas de combate à população de rua, para buscar seu sentido político, seguindo para isso dois eixos: 1) de uma biopolítica, de escala planetária, visando às populações excedentes e 2) de uma geopolítica produzindo estratégias de controle do espaço, no âmbito da cidade. Como veremos, essas duas dimensões estão muitas vezes entrelaçadas nas medidas tomadas contra os moradores de rua, e ambas estão ligadas ao modo de dominação conhecido como ‘globalização’ (ou ‘neoliberalismo’).

A meta última dessas políticas é a eliminação dos moradores de rua. Mencionamos, ao apresentar suas táticas de sobrevivência, as estratégias de extermínio com as quais elas se confrontem. São alguns componentes dessas estratégias que descrevemos neste capítulo. Ao falar de estratégia, no entanto, uma advertência impõe-se: não quero dizer que existe, em algum lugar, ‘estrategistas exterminadores’ que planejariam a aniquilação dos moradores de rua. Nossa hipótese, que justifica o uso do termo estratégia, é que existe uma multiplicidade de práticas, mais ou menos organizadas e agindo em escalas diversas, cada uma segundo sua lógica própria, porém apontando para uma direção comum, que é o extermínio da população de rua.

(1) R. Grüberger, A social history of the third Reich (1971), citado por Bauman, Modernity and the holocaust, p. 124.

Seja como for, em Kafka uma ironia fina vai solapando a solene consistência do Império.

Trecho de texto do Peter, Biopolítica e Biopotência no coração do Império

O Imperador da China resolveu, um belo dia, construir uma muralha para se proteger dos nômades, vindos do Norte. A construção mobilizou a população inteira por anos a fio. Conta Kafka que ela foi empreendida por partes : um bloco aqui, outro ali, outro acolá, e não necessariamente eles se encontravam. De modo que entre um e outro pedaço de muralha construído em regiões desérticas abriam-se grandes brechas, lacunas quilométricas (1). O resultado foi uma muralha descontínua cuja lógica ninguém entendia, já que ela não protegia de nada nem de ninguém. Talvez apenas os nômades, na sua circulação errática pelas fronteiras do Império, tinham alguma noção do conjunto da obra. No entanto, todos supunham que a construção obedecesse a um plano rigoroso elaborado pelo Comando Supremo, mas ninguém sabia quem dele fazia parte e quais seus verdadeiros desígnios. Enquanto isso, um sapateiro residente em Pequim relatou que já havia nômades acampados na praça central, a céu aberto, diante do Palácio Imperial, e que seu número aumentava a cada dia (2). O próprio imperador apareceu uma vez na janela para espiar a agitação que eles provocavam. O Império mobiliza todas suas forças na construção da Muralha contra os nômades, mas eles já estão instalados no coração da capital enquanto o Imperador todo poderoso é um prisioneiro em seu próprio palácio.

Kafka dá poucas indicações sobre os nômades. Eles têm bocas escancaradas, dentes afiados, comem carne crua junto a seus cavalos, falam como gralhas, reviram os olhos e afiam constantemente suas facas. Não parecem ter a intenção de tomar de assalto o palácio imperial. Eles desconhecem os costumes locais e imprimem à capital em que se infiltraram sua esquisitice. Ignoram as leis do Império, parecem ter sua própria lei, que ninguém entende. É uma lei-esquiza, dizem Deleuze-Guattari (3). Por que esquiza ? Talvez pela semelhança do nômade com o esquizo. O esquizo está presente e ausente simultaneamente, ele está na tua frente e ao mesmo tempo te escapa, sempre está dentro e fora, da conversa, da família, da cidade, da economia, da cultura, da linguagem. Ele ocupa um território mas ao mesmo tempo o desmancha, dificilmente ele entra em confronto direto com aquilo que recusa, não aceita a dialética da oposição, que sabe submetida de antemão ao campo do adversário, por isso ele desliza, escorrega, recusa o jogo ou subverte-lhe o sentido, corrói o próprio campo e assim resiste às injunções dominantes. O nômade, como o esquizo, é o desterrritorializado por excelência, aquele que foge e faz tudo fugir. Ele faz da própria desterritorialização um território subjetivo.

1. F. Kafka, A grande muralha da China, São Paulo, Europa América, 1976.

2. F. Kafka, “Uma folha antiga” (texto complementar ao A grande muralha da China), in Um médico rural, trad. Modesto Carone, São Paulo, Cia das Letras, 1999.

3. G. Deleuze e F. Guattari, Kafka – Por uma literatura menor, Rio de Janeiro, Imago, 1977.

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