02. PRINCÍPIO DO RESSENTIMENTO

01. A “hipótese tópica” Freudiana concebe que o mesmo aparelho psíquico não pode receber a excitação e guarda-la permanentemente. Distingue então um aparelho voltado para o exterior (consciência) e um destinado a conservar a excitação captada pelo primeiro (inconsciente).

02. Todos os elementos dessa hipótese estão em NIETZSCHE. Ele concebe dois sistemas do aparelho reativo – consciente e inconsciente. O inconsciente reativo é definido pelas marcas mnêmicas, sendo um sistema digestivo, ruminante, que exprime “a impossibilidade puramente passiva de se subtrair à impressão uma vez recebida”. Mesmo nessa digestão sem fim, as forças reativas executam uma tarefa (obedecem, são agidas). Mas é claro que esse sistema, sozinho, seria insuficiente. Para tornar a adaptação possível há um outro sistema de forças reativas que reage não às marcas, mas a excitação presente ou imagem direta do objeto, sendo que esse sistema não se separa da consciência. Essa segunda espécie de forças mostra sob que forma e condições a reação torna-se agida.

03. Separando os dois sistemas, impedindo que as marcas invadam a consciência, deixando à consciência terreno limpo para o novo, está a faculdade ativa supra-consciente do esquecimento. É ao mesmo tempo, portanto, que a reação, tomando por objeto a excitação na consciência, se torna agida (o que é permitido pelo esquecimento) e que a reação às marcas permanece não sentida, no inconsciente (o que também é permitido pelo esquecimento). Note-se a situação particular do esquecimento – força ativa, age junto às forças reativas, separando-as, funcionalmente. E para renovar a consciência deve constantemente pedir energia à consciência mesma, fazer sua essa energia para recalcar o inconsciente , impedir a emergência das marcas.

Trecho do livro “Nietzsche e a Filosofia“, de Gilles Deleuze.

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