A verdade das ruínas

Sai em português “Vontade de Poder”, edição forjada pela irmã de Nietzsche e que pretendia ser a síntese de sua filosofia

OSWALDO GIACOIA JUNIOR
ESPECIAL PARA A FOLHA

Esta nova edição brasileira de “A Vontade de Poder” tem um precedente em 1945, publicado com o título de “Vontade de Potência” [ed. Globo]. A primeira versão do original é de 1901, com 483 aforismos, editada pelos irmãos Horneffer e Heinrich Köselitz (apelidado por Nietzsche de Peter Gast).
A “versão canônica” de “A Vontade de Poder – Tentativa de uma Transvaloração de Todos os Valores”, composta de 1.067 aforismos, aparece em 1906, sob responsabilidade de Elisabeth Förster-Nietzsche e Peter Gast.
Ambas as versões se baseiam na anotação de 17 de março de 1887, em que Nietzsche projetara um livro em quatro partes, a primeira dedicada ao “niilismo europeu”, a segunda à “crítica dos mais elevados valores”, a terceira ao “princípio de uma nova instituição de valores”, a quarta e última ao “adestramento e cultivo”.
Ernst Horneffer, logo depois da primeira edição, já denunciara a pressa e o diletantismo com que a irmã de Nietzsche dirigia os trabalhos editoriais dos Nietzsche-Archiv, sem criterioso exame de todo o material inédito do irmão.
Isso gerou intensa polêmica, em que intervieram Bäumler, Heidegger, Löwith, Jaspers e Schlechta. Este, na década de 1950, acusou Elisabeth de granjear reputação de autoridade teórica graças à falsificação de cartas do irmão.
Em sua própria edição da obra de Nietzsche, Schlechta recusa a autenticidade de “A Vontade de Poder”, dissolvendo seu conteúdo numa seqüência de fragmentos, remetidos aos manuscritos. Porém Schlechta reproduz, quanto ao conteúdo, o mesmo material da edição de 1906.
Colli e Montinari, no início de 1970, dissipam todos os equívocos, restituindo o material até então publicado ao contexto temático original e à cronologia efetiva dos manuscritos. Desaparece, então, o mito de uma obra mestra, surgido da intenção de Förster-Nietzsche de reunir na unidade sistemática de uma obra o pensamento fundamental do irmão, assegurando-lhe o status de filósofo.
Desde a edição Colli-Montinari, sabe-se que, entre 26/8 e 3/9 de 1888, Nietzsche renunciou à “Vontade de Poder” com o subtítulo “Transvaloração de Todos os Valores”.

Plano alterado
Desde setembro de 1888, esse plano foi alterado. O novo livro seria “Transvaloração de Todos os Valores”, em quatro partes, sendo a primeira “O Anticristo”. A síncope mental do filósofo no início de 1889 complicaria a situação, deixando em aberto o projeto de reunir seu pensamento num único livro.
Em carta a Deussen, de 26/ 11/1888, Nietzsche anuncia a conclusão dos projetos: renuncia à publicação da “Transvaloração”, e a substitui pela primeira parte: “O Anticristo”.
Nessa carta (e a Brandes, de 20/11/1888), a “última palavra” de Nietzsche sobre “A Vontade de Poder” seria substituí-lo não mais pela “Transvaloração”, mas por “O Anticristo”, com o subtítulo “Maldição sobre o Cristianismo”.
Daí em diante, saber se “O Anticristo” conclui os programas planejados para “A Vontade de Poder” e “Transvaloração de Todos os Valores” é um dos problemas mais desafiadores para os especialistas em Nietzsche.

Mal-entendidos
A despeito das hesitações e mudanças, algo se mantém nos vários planos, “a concepção de conjunto continua a mesma: depois da crítica do cristianismo, da moral, da filosofia, Nietzsche tem em vista o anúncio de sua filosofia. Esta é a filosofia de Dioniso, a filosofia do eterno retorno do mesmo.
Considerada do ponto de visto do conteúdo, “A Transvaloração de Todos os Valores” era, em certo sentido, idêntica à “Vontade de Poder”, mas justamente por isso ela era sua negação literária. Ou também: a partir dos apontamentos para “A Vontade de Poder” surgiram “O Crepúsculo dos Ídolos” e “O Anticristo’; o resto é: espólio” [“Nietzsche Lesen”, Ler Nietzsche, de Mazzino Montinari, ed. Walter de Gruyter, 1982].
Um cuidado indispensável é referir-se aos textos de “A Vontade de Poder” sempre em relação à edição Colli-Montinari. Pois “A Vontade de Poder” corresponderia menos a posições de Nietzsche que a intenções de Förster-Nietzsche, induzindo a inevitáveis distorções.
Porém mal-entendidos foram também gerados pelos livros publicados por Nietzsche, sem suscitar igual reserva. A despeito dos problemas que o tornam filosófica e editorialmente insustentável como obra de Nietzsche (retirar fragmentos de seus contextos temáticos originais, desligá-los de sua cronologia, agrupá-los conforme rubricas e esboços abandonados pelo autor), é fato que “A Vontade de Poder” pertence à história efetiva da recepção de sua filosofia.
Por essa razão, o leitor brasileiro, sobretudo aquele que não tem acesso ao original e ao contexto histórico da polêmica, merece ter em mãos uma tradução de qualidade desse livro que, mesmo contestado, tornou-se um clássico da filosofia contemporânea.
A nova tradução tem por base a 13ª edição das obras de Nietzsche por Kröner, tomando o cuidado de comparar cada aforismo com o texto dos fragmentos póstumos estabelecidos na edição histórico-crítica dos escritos de Nietzsche por Colli, Montinari e sucessores.
Escrúpulo filológico providencial, que credencia ainda mais uma tradução feita com rigor e competência, sem descurar da elegância do vernáculo, numa contribuição relevante para os estudos sérios sobre Nietzsche no Brasil.

OSWALDO GIACOIA JUNIOR é professor associado no departamento de filosofia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e autor de, entre outros, “Nietzsche” (Publifolha).

VONTADE DE PODER
Autor: Friedrich Nietzsche
Tradução: Marcos Sinésio P. Fernandes e Francisco José D. de Moraes
Editora: Contraponto (tel. 0/xx/21/ 2544-0206)
Quanto: R$ 70 (516 págs.)

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