É isso mesmo. Ontém fui Papai Noel para cerca de dez, doze crianças. Estava nervoso. Pouco antes de seguir para meu destino e meu público, me toquei que aquelas crianças poderiam acreditar que eu era de verdade, e não apenas um gorducho fantasiado. E se por ventura elas viessem a descobrir que eu não era algo além de um gordunho fantasiado… pensava eu que arruinaria a vida delas para todo o sempre!

Cheguei atrasado e os adultos da festinha já estavam de saco cheio. De qualquer forma, fui vestir a roupa, que tinha direito a cabelo, bota e sininho! Mas… sempre tem um maldito mas!… era uma roupa pequena demais para minha pança e… rasgou! Além do saco vermelho do Papai Noel, levei à mostra meu próprio saco! Graças à Deus eu estava usando cueca!

Enquanto esperava pela minha deixa para entrar, numa rua lateral, uma garotinha descobriu meu esconderijo. Deus me parta com um raio se eu estiver mentindo, mas a garotinha simplesmente se transformou numa estátua! Ficou olhando, olhando, olhando e, quando acenei com a mão e fiz aquele famoso “ho ho ho”, ela acenou de volta e continuou estática.

Pedi a ela que viesse até mim e ela veio. Devia ter 4 anos de idade. Dei um beijinho nela e ela me disse as seguintes emocionantes palavras: “Papai Noel, você tá lindo!!!” Naquele momento, eu não sei quem estava mais fascinado: ela por minha roupa, ou então eu, por suas palavras, por seu olhar, por tudo aquilo.

Então a garotinha foi embora e voltou durante a festa, quando eu apareci e as crianças ficaram em fila. Ela retornou e foi a última da fila. Quando chegou a vez dela, ela tava tão fascinada que mal conseguia falar. Conversei novamente com ela e perguntei novamente o que ela iria querer. Pra minha surpresa, ela não pediu o relógio: “Papai Noel, sua touca tá linda! Eu quero uma touca dessas de presente de natal”.

Depois, meus companheiros de trabalho, que vivem naquela comunidade, me ajudaram a jogar todos os doces do saco pra cima e foi aquela zona. Eu não podia me mexer, pois já estava com o saco de fora e o lado direito da camisa também rasgado, mostrando minha enorme pança.

Depois disso, as crianças começaram a me trazer muita comida, e a garotinha continuou ao meu lado, conversando comigo. Queria saber como era a minha casa, queria saber a que horas eu iria aparecer na casa dela na noite do dia 24, ficou tocando o sininho e tudo isso.

É complicado, porque, enquanto eu tento escrever esse relato e lembro da pequenina, sempre acabo caindo em lágrimas. É muita magia pra eu mesmo aguentar! E, filosofando, eu já não sei quanto tempo faz que não acredito mais em alguma coisa da mesma maneira como ela acreditou naquele Papai Noel que estava bem ali na frente dela.

Eu estou muito tentado a repetir a experiência no próximo ano. Somente para essas crianças pequenininhas. Porque é muito, muito forte ver aqueles olhinhos brilhando. Ao mesmo tempo, sinto que deveria fazer isso de uma maneira programada, com as criancinhas tendo feito seus pedidos de antemão, escrevendo a cartinha, para que eu pudesse batalhar ao longo do ano a compra de seus presentes.

Essa minha mente afetada pelo marxismo é foda. Me impede de viver as coisas com a mesma pureza daquela garotinha…

De qualquer forma, só queria dizer que não vou esquecer mais aquele rostinho e tô indo agora mesmo comprar uma touquinha de papai noel e um relógio pra entregar a ela na noite do natal.

Ho Ho Ho – Feliz Natal!!!

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