Outro dia que se afunda no horizonte. Ao som das muitas vozes de Ryan Adams, simplesmente admiro a beleza deste espetáculo coitidiano de vida e morte. Ao qual estamos vitalmente conectados…

Como a chuva que rondou os céus por todo dia, e quase não caiu, com a mesma insistência vou sentindo uma porção de coisas para as quais não consigo dar nomes. Nos ramos das muitas plantas que embelezam a janela de meu trabalho, resistem gotículas de todos os tamanhos. Em sua resistência, há uma pedagogia que não sou capaz de apreender…

Hoje rondei algumas ruas da cidade, durante meu horário de almoço, tentando encontrar sabe-se lá o quê. Encontrei somente um livro de Bukowski e uns poucos pensamentos. De qualquer forma, era como se eu mesmo tivesse redigido aquelas linhas iniciais do romance, que dizem:

“Cheguei a Nova Orleans às cinco da manhã, debaixo de chuva. Sentei-me nas proximidades da rodoviária por um tempo, mas as pessoas me deprimiam de tal maneira que peguei minha mala, enfrentei a chuva e comecei a andar.”

E, ao mesmo tempo em que essas linhas me abençoavam, pensava que há tempos não consigo tocar em qualquer um dos clássicos autores da literatura universal, mas somente nesses pequenos incompetentes, viciados, homessexuais, feiosos, malucos, tarados, que escreveram algo que está muito distante dos clássicos.

“Leve, leve, muito leve,
Um vento muito leve passa,
E vai-se, sempre muito leve.
E eu não sei o que penso
Nem procuro sabê-lo.”

Diferente de Caeiro, procuro. Gostaria que houvesse algo mais. Não há. Sinto um espaço entre minha pele e o mundo. É quase como se não conseguíssemos manter contato.

Agora venta. Ainda assim, as gotículas insistem em resistir e não rebentar ao chão.

Pedagogia da chuva.

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