Caras, a vida está pesada. Meu corpo todo quer cair sobre um lugar macio e repousar por anos a fio. Ler as milhares de páginas que se acumulam sobre minha estante. Escrever as coisas que cruzam meu corpo, sem a devida poesia que suscitam. Parece-me que comecei a trilhar um caminho que não me leva às coisas em que acredito. E isso me deixa doente. Adoecido. Doente naquele sentido de perder a potência de criação. Quando Eros vai dando lugar a Thanatos. E cada um de nossos pedacinhos vai sendo mortificado. Não quero me tornar letra morta. Não quero me tornar capital. Quero, ao contrário, ser sempre trabalho vivo. Sempre produção e nunca acúmulo. Mas são estranhos os caminhos que nos permitem adoecer.

Acabo de falar ao telefone com minha mãe. Fabulava com ela acerca de um café-bar ou, na outra ponta, uma chácara. Ao final, gostei muito mais da idéia da chácara. Onde produziríamos somente com as forças da natureza, e respeitando. Horta bio-orgânica. Vacas e galinhas criadas livremente. E até mesmo peixes, caso houvesse possibilidade disto estar alinhado com a mãe-terra. Reuniria, então, aqueles que precisam de pouco para viver: apenas o necessário para livros, discos, filmes, e outras coisas irresistíveis do mundo humano.

Trabalharíamos e comercializaríamos de modo justo. Cientes de que não estaríamos contribuindo para o fim do modo de produção capitalista. Cientes, também, de que neste lugar, todo e cada verme teria o mesmo estatuto que todo e cada homem ou mulher. E ergueríamos tudo sobre a base quadrangular: estudos, trabalho, amigos e familiares.

Só de pensar nisso, já me sinto menos doente.

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