Desde a leitura de Boaventura, tenho o desejo de conhecer melhor a obra de Ernst Bloch sobre a esperança. Sinopse da contraponto editora, que lançou a trilogia no Brasil:

Monumental, a obra expõe um longo inventário daquilo que, sob a forma de sonhos e utopias, é portador de esperança. O autor atravessa o espaço e o tempo. Com vasta erudição, focaliza fatos, idéias e textos que marcaram a trajetória dos povos em variados momentos do nosso caminho sobre a Terra. A partir do que enxerga no passado e no presente, esboça os contornos de um futuro possível, em que o homem reconquiste a si mesmo, ultrapasse o reino da alienação e realize um mundo novo.

O alcance da obra, quando publicada na Alemanha entre 1954 e 1959, foi conturbado pela tempestade que se abateu sobre os comunistas em conseqüência das revelações feitas por Kruschev sobre o período stalinista. Mas, já no final da década de 1960 o pensamento de Bloch começa a se colocar na linha de frente do movimento socialista dos estudantes alemães. Basta que se leiam as cartas trocadas entre Rudi Dutschke, líder desse movimento, e Ernst Bloch. Rudi inicia as suas mensagens com o carinhoso tratamento de “querido companheiro Bloch”. Essa correspondência é a marca emblemática de um fraterno encontro de duas gerações de comunistas e a prova da possibilidade de uma relação dialética entre passado e futuro, um dos traços da dimensão utópica. Bloch procurou estabelecer filosoficamente a superação da utopia tradicional por meio de uma ortotopia, que tem como resultado uma cambalhota dialética nas divagações idealistas da utopia abstrata. Essa superação, segundo ele, se deu pela obra de Marx, sendo o socialismo o caminho real das possibilidades efetivas no qual se ergue a utopia concreta. O princípio esperança já pode ser percebido nesta passagem dos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844: “Suponhamos que o homem seja homem e que sua relação com o mundo seja humana; então, só podemos trocar amor por amor, confiança por confiança.” Este é o fundamento do imperativo utópico concreto: o mundo humano, o homem humanizado, o mundo melhor, a vida melhor. Com seu telescópio utópico das imanências, Bloch nos possibilita ver que o quantum utópico é a mathésis do novo. No Brasil, a única obra anteriormente publicada de Ernst Bloch foi Thomas Münzer, o teólogo da revolução (Ed. Tempo Brasileiro, 1973), em tradução de Vamireh Chacon e Celeste Aída Galeão. No entanto, sobre o nosso filósofo foram publicados os seguintes livros: Marxismo e liberdade (Ed. Loyola, 1987), de Luiz Bicca; Ética e utopia (Ed. Movimento, 1985), O enigma da esperança (Ed. Vozes, 1998) e Violência ou não-violência: um estudo em torno de Ernst Bloch (Edunisc, 2000), todos de Suzana Albornoz. O princípio esperança não é de fácil leitura em nosso tempo, ainda mais posto que soma quase 1.700 páginas. Mas a riqueza de sua filosofia é uma das chaves mais importantes para vencermos os impasses ético-políticos do mundo contemporâneo. É, sem dúvida, com as categorias de consciência antecipatória, ainda-não-ser, pré-aparecer e excedente utópico que podemos nos guiar para sair do labirinto deste tempo de reificação total. Como o próprio Bloch postulou: “A filosofia terá a consciência do amanhã, o princípio do futuro, o saber da esperança, ou não terá saber algum.”
(Carlos Lima)

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