Pedagogia da Pele


(Íris Boff Serbena)

Como a capa de um livro, a porta de uma casa, ou a casca de uma fruta, assim é a pele do nosso corpo. Protetora, guardadora do morador desse sagrado Templo, ela é o acabamento final da obra prima, o invólucro que protege e também a via de acesso à sua essência. A distância do toque sensível da pele nos faz analfabetos do corpo, desabrigados da Alma, famintos de afeto, frios insípidos e engessados nas relações.

No mundo dilacerado em que vivemos, medrosos de nossas emoções e sentimentos, distanciados e exilados de nossa natureza mais próxima que é o nosso corpo, estamos como que órfãos da Mãe, carentes de berços fitos de abraços aconchegantes. Nossos ouvidos anseiam por sussurros amorosos e canções de ninar, histórias mágicas contadas na intimidade de nossas camas. Nossa pele tem saudades daquelas mãos que nos acariciavam, acalmavam nossos espantos, ns seguravam, ora com força, com carinho ou cuidado. Nossa pele guarda os registros dos toques sutis, beijos, afagos. Todos esses registros primordiais dormem em nossos corpos e anseiam por um toque respeitoso e humano para serem acordados.

Somos todos carentes de colos arquitetados pelas alcovas de dobras, entrâncias dos nossos corpos. Frios, procuramos o calor das relações pélicas. Mais que de idéias temos fome de tato, contatos afetivos. Desses poderosos corpúsculos da nossa pele, emana uma saudável e irradiante Energia que, de tão prazerosa, nos incomoda, nos constrange e os assusta. No entanto, é a pele nossa primeira inteligência, nosso primeiro cérebro, primeiro órgão de comunicação com o Mundo, enfim, a primeira escola pela qual aprendemos a realidade.

Todos esse indicadores somáticos, S.o. S. do nosso corpo e sua linguagem, encontram, durante muito tempo, indiferença e surdez no templo da Deusa Razão. No entanto, “O corpo tem certas razões que a razão deve considerar”. Afinal, o ESPÍRITO respira pelo corpo. Toda alegria e o sofrimento na pele ou na imagem tem seu efeito na carne. Triunfo e glória, agonia e êxtase, são canais de contato tanto da profundidade como da cultura que faz cada um ser o que é.

Assim, toda a confiança e comunicação, necessidades vitais a qualquer ser vivo, é sempre restabelecida por um gesto primordial e comum a todos: o toque.

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