Um grupo de dez pessoas precisa de uma casa para viver. Eles vivem sempre de favor nas casas de oturas pessoas. Para este grupo, não ter uma casa representa um problema. E a solução para este problema é a construção coletiva da casa.

Todos estão reunidos quando surge a idéia da construção coletiva. A idéia, aliás, é aplaudida por todos. E alguns compromissos mínimos são estabelecidos entre todos. Cada um fica responsável por uma tarefa diferente.

Nas duas primeiras semanas o trabalho transcorre normalmente. Todos se empenham na construção e na realização das tarefas. Entretanto, duas semanas são insuficientes para construção desta casa.

Quando algumas destas dez pessoas se dão conta disso, também se dão conta de que tem mil outras atividades pra fazer. Coisas que importam na medida em que são obrigações.

Assim, os membros do grupo vão se afastando. E voltam à sua rotina normal, voltam às suas obrigações, e deixam as tarefas de construção coletiva da casa de lado. Sem, contudo, avisar aos demais membros do grupo.

Menos da metade do grupo continuou com suas tarefas. Eles estavam encarregados de erguer as paredes da casa. E passaram aquelas duas primeiras semanas comprando os elementos necessários para essa construção.

Entretanto, quando já tinham todos os elementos reunidos, e estavam prontos para erguer as paredes, perceberam que os demais haviam deixado suas tarefas de lado. E suas tarefas consistiam em fazer o alicerce, a base para que as paredes fossem erguidas.

Então, aqueles que ficaram encarregados entenderam-se:

– Nossos camaradas devem estar ocupados demais com outras coisas. Mas, com certeza, não se esqueceram daqui. Vamos construir a parte deles. Devemos ter confiança de que, em breve, virão para nos substituir em nossa tarefa.

Então, eles começaram a construir o alicerce. E, quando terminaram o alicerce, começaram a erguer as paredes. Ao final de cada dia, perguntavam uns aos outros por que os companheiros não apareciam.

Até que, em meados deste processo, um deles se cansou. E expôs aos demais sua frustração, o quanto era difícil entender que seus companheiros haviam, simplesmente, deixado suas tarefas de lado sem sequer enviar um bilhete explicando seus motivos.

Estes poucos que restavam, novamente, concordaram numa atitude:

– Vamos avisar aos companheiros sobre nosso cansaço e nossa frustração. Mas vamos dizer da forma como estamos sentindo. Certamente eles irão responder e dizer algumas palavras.

Assim fizeram. Mais uma vez, contudo, seus camaradas não retornaram uma linha sequer. Nem mesmo o mestre do grupo, que tinha experiência suficiente para ajudá-los a passar por aquela situação. Todos, inclusive o mestre, se omitiram.

A construção coletiva parou. E aqueles poucos que estavam construindo, desistiram.

Hoje, todos do grupo continuam vivendo de favor. Suas atividades estão reduzidas à obrigações. A construção coletiva da casa, que seria não apenas uma saída para esta escravidão, mas também uma saída prazerosa, parou.

Moral da estória: se você quiser continuar trabalhando para o patrão, pesquisando para o patrão, dependendo de bolsa-estágio do patrão, a receita é a seguinte – deixe de cumprir com suas tarefas, torne-se omisso e simplesmente continue vivendo de favor na universidade dos outros.

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