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Mês

Junho 2007

Pedagogia da Pele


(Íris Boff Serbena)

Como a capa de um livro, a porta de uma casa, ou a casca de uma fruta, assim é a pele do nosso corpo. Protetora, guardadora do morador desse sagrado Templo, ela é o acabamento final da obra prima, o invólucro que protege e também a via de acesso à sua essência. A distância do toque sensível da pele nos faz analfabetos do corpo, desabrigados da Alma, famintos de afeto, frios insípidos e engessados nas relações.

No mundo dilacerado em que vivemos, medrosos de nossas emoções e sentimentos, distanciados e exilados de nossa natureza mais próxima que é o nosso corpo, estamos como que órfãos da Mãe, carentes de berços fitos de abraços aconchegantes. Nossos ouvidos anseiam por sussurros amorosos e canções de ninar, histórias mágicas contadas na intimidade de nossas camas. Nossa pele tem saudades daquelas mãos que nos acariciavam, acalmavam nossos espantos, ns seguravam, ora com força, com carinho ou cuidado. Nossa pele guarda os registros dos toques sutis, beijos, afagos. Todos esses registros primordiais dormem em nossos corpos e anseiam por um toque respeitoso e humano para serem acordados.

Somos todos carentes de colos arquitetados pelas alcovas de dobras, entrâncias dos nossos corpos. Frios, procuramos o calor das relações pélicas. Mais que de idéias temos fome de tato, contatos afetivos. Desses poderosos corpúsculos da nossa pele, emana uma saudável e irradiante Energia que, de tão prazerosa, nos incomoda, nos constrange e os assusta. No entanto, é a pele nossa primeira inteligência, nosso primeiro cérebro, primeiro órgão de comunicação com o Mundo, enfim, a primeira escola pela qual aprendemos a realidade.

Todos esse indicadores somáticos, S.o. S. do nosso corpo e sua linguagem, encontram, durante muito tempo, indiferença e surdez no templo da Deusa Razão. No entanto, “O corpo tem certas razões que a razão deve considerar”. Afinal, o ESPÍRITO respira pelo corpo. Toda alegria e o sofrimento na pele ou na imagem tem seu efeito na carne. Triunfo e glória, agonia e êxtase, são canais de contato tanto da profundidade como da cultura que faz cada um ser o que é.

Assim, toda a confiança e comunicação, necessidades vitais a qualquer ser vivo, é sempre restabelecida por um gesto primordial e comum a todos: o toque.

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Vivendo segundo as obrigações

Um grupo de dez pessoas precisa de uma casa para viver. Eles vivem sempre de favor nas casas de oturas pessoas. Para este grupo, não ter uma casa representa um problema. E a solução para este problema é a construção coletiva da casa.

Todos estão reunidos quando surge a idéia da construção coletiva. A idéia, aliás, é aplaudida por todos. E alguns compromissos mínimos são estabelecidos entre todos. Cada um fica responsável por uma tarefa diferente.

Nas duas primeiras semanas o trabalho transcorre normalmente. Todos se empenham na construção e na realização das tarefas. Entretanto, duas semanas são insuficientes para construção desta casa.

Quando algumas destas dez pessoas se dão conta disso, também se dão conta de que tem mil outras atividades pra fazer. Coisas que importam na medida em que são obrigações.

Assim, os membros do grupo vão se afastando. E voltam à sua rotina normal, voltam às suas obrigações, e deixam as tarefas de construção coletiva da casa de lado. Sem, contudo, avisar aos demais membros do grupo.

Menos da metade do grupo continuou com suas tarefas. Eles estavam encarregados de erguer as paredes da casa. E passaram aquelas duas primeiras semanas comprando os elementos necessários para essa construção.

Entretanto, quando já tinham todos os elementos reunidos, e estavam prontos para erguer as paredes, perceberam que os demais haviam deixado suas tarefas de lado. E suas tarefas consistiam em fazer o alicerce, a base para que as paredes fossem erguidas.

Então, aqueles que ficaram encarregados entenderam-se:

– Nossos camaradas devem estar ocupados demais com outras coisas. Mas, com certeza, não se esqueceram daqui. Vamos construir a parte deles. Devemos ter confiança de que, em breve, virão para nos substituir em nossa tarefa.

Então, eles começaram a construir o alicerce. E, quando terminaram o alicerce, começaram a erguer as paredes. Ao final de cada dia, perguntavam uns aos outros por que os companheiros não apareciam.

Até que, em meados deste processo, um deles se cansou. E expôs aos demais sua frustração, o quanto era difícil entender que seus companheiros haviam, simplesmente, deixado suas tarefas de lado sem sequer enviar um bilhete explicando seus motivos.

Estes poucos que restavam, novamente, concordaram numa atitude:

– Vamos avisar aos companheiros sobre nosso cansaço e nossa frustração. Mas vamos dizer da forma como estamos sentindo. Certamente eles irão responder e dizer algumas palavras.

Assim fizeram. Mais uma vez, contudo, seus camaradas não retornaram uma linha sequer. Nem mesmo o mestre do grupo, que tinha experiência suficiente para ajudá-los a passar por aquela situação. Todos, inclusive o mestre, se omitiram.

A construção coletiva parou. E aqueles poucos que estavam construindo, desistiram.

Hoje, todos do grupo continuam vivendo de favor. Suas atividades estão reduzidas à obrigações. A construção coletiva da casa, que seria não apenas uma saída para esta escravidão, mas também uma saída prazerosa, parou.

Moral da estória: se você quiser continuar trabalhando para o patrão, pesquisando para o patrão, dependendo de bolsa-estágio do patrão, a receita é a seguinte – deixe de cumprir com suas tarefas, torne-se omisso e simplesmente continue vivendo de favor na universidade dos outros.

Espinosa no supermercado

Nunca lemos Espinosa. Ainda assim, é ele que nos impulsiona. Num grupo de estudos que pretende expandir o comum e contribuir para com a construção do projeto da multidão. Mas fico tentando imaginar o cotidiano de Maledictus. O que eletrizou seu corpo para produzir o que produziu? Penso em seu cotidiano. A maneira como era atravessado e atravessava o mundo. Como ele se sentiria num mundo cheio de engarrafamentos, fast-foods, seriados de TV, internet, aviões? Como ele caminharia dentro de um supermercado que comporta tudo? Pensei nisso hoje, enquanto me sentia patético dentro de um supermercado.

Hypomnemata

Vejam só.

Naquele artigo, A Escrita de Si, Michel Foucault fala de umas cadernetas usadas pelos antigos para anotar frases, passagens, escritos por outras pessoas, e que fossem “úteis” na construção que o indivíduo fazia de si mesmo.

Enfim, essas cadernetas chamavam-se Hypomnemata. E levei umas duas semanas pra aprender a escrever essa droga de palavra! E, até hoje, não sei como se pronuncia!

De qualquer forma, não se tratava de diários, mas de caderninhos onde as pessoas anotavam frases. Depois, podiam consultar esses tais caderninos.

Novamente, enfim. Aqui não vai ser propriamente um caderninho deste tipo. Coloquei o nome só pra ficar meio arrogante… E ainda não sei bem o que será deste blog. Ainda não consegui articular muito bem a coisa da escrita e da necessidade de sua veiculação pública.

Os blogs costumam ser mais pessoais. Mas ainda prefiro sonhar com um mundo de cartas, escritas em papel e enviadas pelo correio.

De qualquer maneira, letrinhas pelo mundo virtual. Letrinhas.

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